Community – 4×04 – Alternative History of the German Invasion

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Por Caetano Barsoteli

É curioso como “Alternative History of the German Invasion” é, ao mesmo tempo, um episódio de altas enunciações e tão pouco impacto. A união do grupo – em vez de sua desunião, como abordado nos episódios passados desta temporada – veio à tona num contexto potencialmente divertido e bastante significativo, já que girou em torno da briga do grupo de amigos pela tão querida sala de estudos (um lugar que podemos dizer ser peça icônica da série). No entanto, a concepção de que o grupo é uma família (mencionada por Jeff em um de seus discursos) foi apenas uma noção notificada. Embora plana, a ideia de tema sempre funcionou em Community, e explorar a união do grupo como uma verdadeira família, visando a reconquista de sua casa, provavelmente renderia um excelente episódio (ou até a ideia mais imaginativa proposta pelo professor sobre recontar a História sob a perspectiva dos derrotados – o que não foi bem aproveitado no episódio).

Mas “Alternative History of the German Invasion” foi sobre outras coisas. Foi, em suma, sobre a ideia de que o grupo, como família ou não, ainda deve ser reparado moralmente. Para isso, os roteiristas buscaram uma alusão na clássica comédia passada na Segunda Guerra Mundial Hogan’s Heroes: num duelo com o irritante trio alemão pela posse da sala de estudos, Jeff e companhia foram obrigados a rever alguns de seus conceitos, percebendo que não eram os heróis de Hogan’s Heroes como imaginavam, mas sim os inimigos, isto é, os nazistas. E o episódio, basicamente, foi feito para essa surpresa, para essa reviravolta (que contou até com um divertido flashback epifânico mostrando a atitude ditatorial do grupo em relação à sala de estudos). Tal descoberta foi até positiva já que deu uma boa aliviada na oposição meio que preconceituosa contra os alemães retratados no episódio (ainda que as piadas sobre a cultura alemã em si tenham sido razoáveis, a vilanização dos alemães soou forçada e tola).

Mas tudo se afunila a uma questão: a falta de graça do episódio. Piadas óbvias pintaram aqui como nunca antes. Community sempre teve a sagacidade de nos surpreender com algum diálogo brilhante jogado ao vento, com uma fala hilária despercebida, ao mesmo tempo em que elas permaneciam coerentes ao personagem que as dizia. Agora, como podemos esboçar mais do que um riso de canto de boca quando Pierce e Troy fazem comentários que na nossa cabeça já adiantamos que fariam? Se ao menos cultivassem qualquer coisa de perspicácia, de surpresa, poderíamos dizer que a escrita da série anda na ordem. Mas não, não está.

E isso percebe-se, também, por uma perspectiva mais ampla, analisando a própria estrutura do episódio, que pegando essa ideia de reparação, se desenvolveu como uma sitcom das mais tradicionais (pelo segundo episódio consecutivo). Mas não reclamo da resolução, e sim de como esta resolução soa ordenada em uma estrutura tão ordinária e permeada por um conteúdo de escrita tão razoável… É o mesmo caso da sequência das cadeiras desmoronando: conceitualmente ótima, talvez o momento mais engraçado do episódio. Porém, a sequência soou menos do que parecia ser, certamente porque o contexto ao qual foi arranjada decepcionou em conteúdo e preparação.

Não muito pode-se falar sobre a subtrama envolvendo Chang (agora Kevin) e o Reitor Pelton, a não ser dizer que também foi bem sem graça. É claro que tudo é uma desculpa para integrar o personagem Chang novamente na série, mas ao menos o humor da trama compensaria caso não fosse tão óbvio e transitório. Enfim, ainda há enunciações feitas pelo episódio que poderiam ser aproveitadas futuramente: não só o comportamento condenável do grupo perante todo o restante da faculdade como também a noção de família que, por mais piegas que possa parecer, arrisco supor ser um caminho bom para que tudo volte à harmonia que costumava reger a série.