Community – 4×05 – Cooperative Escapism in Familial Relations

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Por Caetano Barsoteli

Até que não demorou muito para termos um episódio realmente bom nesta temporada, apesar da decepção que perpassou o início deste quarto ano. Em seu quinto capítulo, Community alcançou dois pontos cruciais que a estabeleceram num equilíbrio perfeito: o resgate daquele espírito da era Harmon e o avanço das histórias dos personagens, visando já um estado de definição sinalizado pelo fim da série, que muito provavelmente não passará desta quarta temporada.

A divisão do episódio em duas tramas revezadas possibilitou um investimento maior em cada uma delas. Se o encontro de Jeff com seu pai, num jantar de Ação de Graças, já surge como um acontecimento de peso e altamente antecipado, por espectadores e pelos personagens da série, o mais descompromissado jantar na casa de Shirley, que tem como convidados Abed, Troy, Annie e Pierce, é trabalhado de modo a rivalizar, pelo menos no quesito divertimento, com a trama de Jeff Winger.

E cada porção do episódio parece corresponder a um ponto crucial responsável por mover a série novamente ao seu eixo. Na trama passada na casa de Shirley, os roteiristas são felizes em todas as atitudes inventivas que tomam: primeiro, retornam à ordem natural os diálogos de Troy e Pierce, que soam genuinamente engraçados, às suas próprias maneiras, sem que pareçam versões óbvias de si mesmos, como estava acontecendo nos episódios anteriores; segundo, conseguem desenvolver a trama com surpresas ao ainda evocar uma referência central que serve perfeitamente à situação em que os personagens se encontram – a narração acalentada de Abed, à la Morgan Freeman, é hilária por si só, e as observações em off do personagem são impagáveis; além do mais, é interessante como a referência aqui não soa forçada, já que a própria inadequação da circunstância dos personagens com o enredo de The Shawshank Redemption (o filme referenciado) é reconhecido por Abed, que até tenta reparar o paralelo ao dizer que aquilo se parecia mais com Prison Break (o mapa da casa desenhado no corpo de Abed referencia um dos mais famosos símbolos da série). O toque final é dado ainda no desfecho do episódio, quando Abed, ainda narrando em off, conclui tematicamente o episódio sem deixar de reconhecer as forçadas de barra de sua própria conclusão.

Por sua vez, a trama envolvendo Jeff, seu pai, seu meio irmão e a intrusa Britta foi igualmente divertida, mas com o adendo de ser dramaticamente relevante para o advogado. E muito embora a história tenha se desenrolado sem grandes surpresas (o inicial distanciamento entre pai e filho, a eventual conexão quando descobrem características em comum e a inevitável confrontação com as mágoas passadas), o acontecimento pareceu avançar a série para frente e tornar mais consistente a relação de Jeff com os demais colegas, especialmente com Britta, quando reconhece que esta tinha razão sobre tudo que antecipara em relação ao encontro com seu pai. Também pudemos testemunhar um Jeff mais humano, se abrindo por completo e revelando traços de vulnerabilidade jamais vistos, ou pelo menos evidenciados no personagem – e tudo isso sem que ele perdesse sua habitual compostura segura e convicta, o que é apenas um detalhe responsável por fazer de Jeff Winger um personagem tão interessante e especial.

Só podemos esperar que este balanço, esta formosura de espírito seja mantida nos episódios seguintes, pois não há nada quebrado em Community que, mesmo manifestado em quatro episódios, não possa ser reparado em apenas um. Até onde sabemos, ainda podemos estar diante da melhor temporada da série, com ou sem Dan Harmon. Pelo menos é nesse ânimo que Cooperative Escapism in Familial Relations nos deixa, o que é mérito indiscutível do episódio, aconteça o que acontecer daqui pra frente.