Community – 4×06 – Advanced Documentary Filmmaking

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Por Caetano Barsoteli

“Advanced Documentary Filmmaking”, como um todo, foi divertido, moderadamente engraçado e entreteve mais por suas diferenças do que pela qualidade de suas passagens lúdicas e cômicas ou de seu propósito geral. Pois é com certa incerteza que recebi tudo que foi apresentado no episódio. Incerteza de forma e conteúdo. A começar pelo formato adotado para narrar a história: o documental (pensando extra-diegeticamente, uma simulação deste, já que obviamente tratamos de um produto ficcional), que havia sido utilizado antes, com extrema sagacidade, para parodiar o mockumentary de sitcoms televisivas, o “documentário de bastidores” que remeteu diretamente ao antológico Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse e, finalmente, o caráter televisivo dos documentários do History Channel, que caiu muito bem à temática desenvolvida pelo episódio.

O novo uso do formato, numa continuidade “avançada”, como sugere o título do capítulo, me pareceu equivocado primeiramente por não apresentar razão que justifique suficientemente seu emprego, a não ser a de querer emular o comportamento que Community costumava ter antes da quarta temporada. Claro, dentro do enredo a explicação para que Abed e outros personagens se munam de câmeras é devidamente dada, mas o que isso realmente acrescenta ao conteúdo do episódio é o que compromete toda a razão de existir do formato. Pois, em segundo lugar, praticamente nenhum insight cômico sobre o formato foi dado – ou se foi dado, passou batido por sua obviedade -, o que pelo menos justificaria razoavelmente e de modo isolado o fato do formato documental servir como recurso narrativo.

O porquê disso, suponho, se deve ao fato de que o subgênero documental aqui parodiado poucas características marcantes possuí para se delinear um arremedo sagaz. Salvo uma passagem muitíssimo bem bolada que faz graça com a ideia do Cinéma vérité feito por amadores – leia-se: pessoas desprovidas de qualquer senso técnico no manejo de uma câmera – e que acabam botando todo um valoroso registro a perder por não saberem como usar o aparelho. Fora isso, nada de revelador ou engraçado foi apontado sobre o formato, sendo que algumas vezes, inclusive, o episódio poderia funcionar tranquilamente – ou de maneira até melhor – sem ele.

Em alguns pontos isolados, o conteúdo se sobrepôs ao formato e se mostrou mais interessante, como a parceria de Annie e Troy, que assumiram o papel de parceiros de investigação e protagonizaram algumas cenas realmente cômicas. Mas o ponto redentor do episódio é mesmo o arco desenvolvido ao redor de Jeff, e não de Chang (mais sobre isso abaixo), que novamente teve uma prova aparentemente decisiva que eventualmente o levará a uma transição final de crenças e comportamentos sobre tudo e todos. Assim, foi interessante testemunhar a teimosia do personagem em teste contra a ideia da “changnesia”, que por vir de Chang, suscita até no espectador mais desgostoso com Jeff uma ponta forte de ceticismo, o que manteve uma sombra de tensão durante todo o episódio, que poderia dar a qualquer um dos dois personagens a risada final (literalmente, como vimos no fim).

A questão é que Jeff estar errado foi bom, pois permitiu que o personagem revisse novamente suas atitudes e – importante – que as revisse em retrospecto ao que ele sempre foi perante seus amigos e à sua vida de um modo geral. Além do mais, foi genuinamente emocionante ver o personagem reconhecendo seu erro, principalmente quando aperta as mãos de Chang/Kevin na cena final do filme de Abed (se há uma coisa que o formato adotado beneficiou foi nossa receptividade da resolução redentora típica do personagem Jeff ao final, embora isso pudesse soar perfeitamente aceitável e convincente num formato mais comum, uma vez que Community já tenha o feito tantas vezes).

Mas acontece que Jeff realmente estava certo, o que de modo algum desqualifica a evolução do personagem, pelo menos não por ora, entretanto a enfraquece um tanto diante dos olhos do espectador, já que agora sabemos que Chang, mentindo este tempo todo, só convenceu Winger porque é uma farsa muito bem elaborada. E mais: a restituição de Chang à série como Kevin, um ser inocentemente benigno, me pareceu válida e até positivamente nonsense, soando bem com o que Community faria com um personagem que apesar de popular e interpretado por um ator adorado, foi rapidamente exaurido, logo após a primeira temporada, sem que soubessem, depois disso, como adequá-lo, com toda sua superlativa idiossincrasia, à trama corrente, alternando abruptamente sua personalidade. Seria uma manobra quase auto-referencial que daria aos roteiristas a oportunidade de trabalhar com um novo personagem no casco de um velho, não fosse, claro, o fato de que Chang é realmente um farsante, o que, particularmente, é decepcionante, ainda mais quando sua farsa parece indicar uma reviravolta que provavelmente o colocará novamente como vilão mor da série – algo que não só seria repetitivo como também dificilmente rivalizaria com o período de vilania máxima do personagem na temporada passada.