Community – 4×09 – Intro to Felt Surrogacy

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Por Caetano Barsoteli

Um episódio como este de Community não poderia surgir em melhor hora. Após o sucesso do capítulo anterior, a comédia procurou refletir com a primeira empreitada conceitual da temporada aquela que parece ser sua situação atual – em muitas maneiras. Estamos num estágio avançado da série, um que admite alguns tropeços e perdas de fôlego, seja pela saída do criador original da sitcom, Dan Harmon, ou pelo simples fato de que o tempo está passando e sobre a série um efeito causando, a permitindo se desenvolver, evolutiva ou involutivamente. Aqui, no entanto, nota-se uma evolução clara, um reconhecimento de estado que toma uma forma quase metalinguística de ser, exatamente da maneira como Community sempre foi, mas com uma inegável perspectiva de futuro pertinente ao iminente fim para onde a comédia vem caminhando.

Os fantoches, com o pretexto da terapia em grupo, foram invocados menos para homenagear a arte em si – como poderiam fazer ao acenar para nomes como Edgar Bergen, Jeff Dunham (estes do ventriloquismo) ou à criação de Jim Henson, os famosos Muppets, aqui até que bastante referenciados – e mais para adquirir a liberdade, a soltura necessária para trabalhar com as barreiras do grupo como um todo. Assim, tivemos um episódio cujo conteúdo conceitual serviu adequadamente à finalidade narrativa do mesmo – uma exigência sempre buscada pela série em casos de homenagens pops.

O senso unificador que vem sendo denotado nesta temporada apresentou-se novamente como meta dos roteiristas em “Intro to Felt Surrogacy”. Mas a união e aceitação do outro – fortificada pela comovente troca de segredos sórdidos que ilustravam aquilo de mais defeituoso em cada um – foi acompanhada de um reconhecimento de estado que se reflete tanto interna quanto, num plano metalinguístico, externamente. Foi o caso da repetitividade, da monótona rotina que levou os amigos de Greendale a embarcarem numa aventura reveladora envolvendo acidentes de balões, caminhadas pela floresta à la Lost e naturais drogas psicodélicas: a renovação foi lançada em questão (o jogo de padrões de Troy e Abed é uma ótima sacada para representar isso), e é tão reconhecível a questão de renovar as atividades num grupo de amigos quanto a noção auto-referencial ao qual a série sugeriu, admitindo sua potencial monotonia com produto artístico da televisão.

A partir destes dois prospectos, a série pôde olhar diretamente para um norte evolutivo a ser seguido – e não são todas as séries que podem se dar ao luxo de fazer um episódio tão objetivamente introspectivo como “Intro to Felt Surrogacy” e, ainda por cima, ser extremamente divertido: as canções incrivelmente amáveis e inventivas prestaram um tributo digno aos Muppets; as piadas e falas isoladas funcionaram bem e a participação de um “cabeludo” Jason Alexander surgiu como bônus especialmente aos fãs de Seinfeld.

Em suma, “Intro to Felt Surrogacy” foi um divertido, amável e importante episódio de Community que restaurou de uma vez por todas o brilhantismo da série, com ou sem seu criador original no comando.