Community – 4×10 – Intro to Knots

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Por Caetano Barsoteli

Neste episódio de natal fora de época de Community, fomos presenteados com uma trama repleta de mini-reviravoltas que, em comparação com os dois episódios passados, exibiu pouca representatividade em relação à trama geral da temporada, já que em vez de desenvolver relações e indivíduos, aqui foi desenvolvido o grupo todo conjuntamente e de maneira repetida, isto é, basicamente emulando o que a série vem fazendo, costumeiramente, ao longo dos seus quatro anos, e que é diferente do que fez nos episódios passados: em “Herstory of Dance” foram desenvolvidos aspectos específicos de relações e indivíduos, ao passo que “Intro to Felt Surrogacy” foi um episódio significativo de estado que expôs elos mais íntimos dentro do grupo de personagens – e, em ambos os casos, tudo isso foi feito com a perspectiva de um ponto final, de uma conclusão correntemente implícita no texto deste quarto ano.

Isso tudo inferiorizou o episódio em relevância, mas não impediu que dele brotasse uma diversão consistente. “Intro to Knots” assumiu, novamente na história da série, a cara de um bottle episode, um episódio barato e passado em apenas um cenário. Desta vez, porém, o conceito não foi reconhecido metalinguisticamente, e autorreferências, partidas de Abed, é claro, se limitaram a reconhecer não o tipo de produção do episódio (sobre isso, destaco a direção, apostando em planos um pouco mais longos e travellings que combinaram com a ambientação do enredo), mas suas características de gênero: aqui, tivemos um episódio de suspense, em que pequenos mistérios germinaram e uma tensão constante em torno de um problema predominou: a presença do professor de História de Greendale, interpretado pelo eterno Alex de Laranja Mecânica Malcolm McDowell, na confraternização de natal do grupo de amigos, apenas para que pudessem bajulá-lo a fim de conquistarem uma nota melhor no trabalho que perigaria privá-los de seus objetivos individuais. O professor Cornwallis, um sujeito manipulador que mais tinha a ganhar com sua situação de vítima-vilão do que todos imaginavam, acabou por proporcionar um bom material para que o episódio se saísse bem em seu objetivo de gênero.

Alguns óbices, no entanto, ficaram pelo caminho no decorrer do bem sucedido capítulo, sendo um deles a ausência por razões extradiegéticas de Chevy Chase no papel de Pierce (algo que não caracteriza, exatamente, um óbice, mas uma falta negativa merecedora de nota). Outro aspecto negativo, que se mostrou incômodo durante o episódio, foi o não inédito emburrecimento do personagem Troy, que ficou com as piores falas do episódio, denotando que, na falta de uma função mais digna e condizente com as nuances do personagem, os roteiristas tendem a simplificá-lo como “o burro”, de modo que Troy se pareça, episódio sim, episódio não, com um Quico – do Chaves menos célebre. Já o farsante Chang/Kevin e sua mentirosa changnesia, apesar de funcionar como um eficiente alívio cômico (dentro de uma série já cômica, o que é muito), falho nos parece uma vez que sabemos que tudo que o personagem faz se trata de um engodo elaborado, porém repetitivo e de maneira nenhuma interessante – tanto que os poucos segundos a mostrar Chang fora de sua criação Kevin, apenas para nos lembrar de que há algo por trás daquilo tudo, foram suficientes para causar o tédio (ainda bem, passageiro). Por que não poderia a changnesia de Kevin ser verdadeira e o personagem ser somente uma inconsequente figura cômica?

Ao menos tivemos um vislumbre deveras curioso da realidade sombria que, supostamente, habita apenas a cabeça de Abed. Sempre tive uma queda por essa ideia de realidade alternativa em Community, e não só como dimensão imaginária de um personagem, mas de possibilidade palpável para ocorrer na série. Algo assim, que assuma grandes riscos, justamente por permitir uma sacudida estrutural na série, é o que daria a Community um fôlego novo e atraente, muito mais interessante e ameaçador do que qualquer trama bem elaborada a respeito de um maligno Chang.