Community – 4×13 – Advanced Introduction to Finality

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Por Caetano Barsoteli

A questão das realidades paralelas em Community sempre foi uma das mais instigantes de toda a série. Conforme a ideia foi sendo introduzida, a possibilidade de que elas pudessem realmente acontecer foi se fortificando. Sempre houve, no entanto, um limite tênue entre a realização virtual, imaginária dessas realidades – como sempre ocorreu na mente de Abed – e a realização concreta delas. Particularmente, torcia para que uma realização concreta ocorresse, não apenas pela diversão que seria, mas também pelo choque interno e externo que isso causaria (promovendo um ineditismo televisivo pelo total abalo da lógica e verossimilhança interna da série). Em “Advanced Introduction to Finality”, ultimo episódio desta quarta temporada, pudemos ter um vislumbre de como essa realidade se daria em forma integral, ainda que justificada pelo devaneio de um personagem, o que se revelou, ao mesmo tempo, como uma decepção e um alívio.

Pois a partir da quimera visita de Jeff a este universo onde duas realidades diferentes se entrecruzam, pudemos constatar o quão ruim este salto de verossimilhança poderia ser para Community. Ao menos neste episódio a coisa toda foi de um mau gosto tremendo, pessimamente executada e com um funcionamento interno pedestre. Em princípio, a ideia de Community gastar um episódio quase todo flertando diretamente com a noção de realidades paralelas acontecendo apenas para puxar o botão do “foi tudo mentirinha” no final constituiria a decepção que mencionei acima. Mas dada a execução desta narrativa, o alívio tomou lugar e voltar à realidade lógica e verossímil da série foi digno de comemoração.

Porém nem tanta, já que ainda tivemos de conviver com essa realidade fantasiosa durante a maior parte do episódio, e nela não tivemos nada funcionando: a lógica interna se apresentou precária, as piadas bobas, os momentos de tensão tolos e o senso de clima e atmosfera completamente ausente, a não ser por uma montagem um pouco mais rápida e uma trilha manjada que nem num nível paródico conseguiram tornar aprazível a experiência de se assistir ao episódio. Pelo menos tivemos uma justificativa dramática coerente e que soaria infinitamente mais tocante caso fosse investida de uma trama melhor e bem executada: a questão de que Jeff ainda cultivava resquícios de seu lado “mau”, isto é, de sua vida passada, e estava temendo a mudança que havia sofrido durante sua passagem por Greendale, relutando em assumir que era, de fato, uma pessoa transformada.

Assim, toda a fantasia em torno da realidade paralela permaneceu ancorada por aquele mesmo princípio que sempre tornou as referências e homenagens à cultura pop feitas por Community em um recurso dramático significativo e nada gratuito. Tudo serviu ao desenvolvimento do personagem, mas, neste caso, a diversão foi deixada de lado, sendo absolutamente comprometida por uma narrativa sequencialmente anticlimática e desprovida de perspicácia.

Como final de temporada, “Advanced Introduction to Finality” funciona mais ou menos. Afinal, conclui-se, de certa forma, o ciclo de um personagem, teoricamente o principal, mas não dos outros, além de deixar em aberto outras subtramas que permanecem em espera. O balanço final desta quarta temporada (que, afinal, não será a última), portanto, é morno: tivemos bons episódios, alguns que aspiraram à genialidade da série, mas de maneira mais discreta e fugaz, uma vez que o todo da temporada foi irregular, apresentando uma considerável cota de episódios medianos e, infelizmente, terminando com o pior deles. Tentar vislumbrar a próxima temporada é uma tarefa nebulosa, e, sendo assim, termino apenas registrando minha óbvia torcida para que o quinto ano de Community seja melhor, e que os roteiristas reparem o que tiverem de reparar para colocarem a série de volta no eixo da alta qualidade em que antes residia.

2 COMENTÁRIOS

  1. A quarta temporada foi um fracasso total.

    A partir da segunda temp, cada novo episódio se tornava incrivelmente melhor que o anterior, mas nesse ano, foi triste, amargo e não desceu redondo nenhum capítulo.

    A série piorou onde não tinha mais quando o magnífico Pierce começou a aparecer menos (o que foi aquilo?).

    O Chang ficou bonzinho de uma hora para outra?
    E o plano maligno do outro reitor, só aquilo? quando a “aranha” entrará em cena?
    E o Starburns, que apareceu vivinho no final da temporada passada?. Ele com certeza traria situações hilárias se fosse bem aproveitado.
    A expectativa que tive, do Jeff encontrar o pai biológico (também no final da temporada passada) foi grande, e eles transformaram numa grande decepção.

    São tantas perguntas e tantos erros, que eu me pergunto as vezes, se o pessoal responsável pela série não foi tudo embora junto o Dan Harmon.

    Eu não poderia descrever melhor o quão ruim foi Community sem compara-la com a oitava temporada de The Office.

    Mas The Office ressurgiu como a Phoenix na 9º temp, e trouxe de volta a alegria dos anos iniciais, espero que Community faça o mesmo no próximo ano e feche com chave de ouro esse magnífico show que já me fez chorar de rir várias vezes.

    O meu amor e admiração por Community não será manchada por uma mera temporada de 13 episódios, mesmo que o próximo ano seja pior que esse, sempre lembrarei de Community das 3 primeiras temporadas e esquecerei dessa falha atual (sim eu posso fazer isso).

    O que não perde a qualidade são seus reviews, li TODAS as suas análises (a partir da 2º temp) depois de ver cada episódio, e foi muito importante para mim, que sempre deixava um detalhe escapar.

    Meus dois episódios favoritos são o da caneta roubada e o da realidade alternativa.
    Abraço, obrigado por me indicar essa série, e até ano que vem.

    P.S. Desculpe, postei erroneamente no season finale da tericeira temporada também…

  2. Heduardo, concordo bastante com o que você disse. Não que essa quarta temporada tenha sido abominável. Em comparação com muitas séries de comédia, foi até boa, mas em comparação com a genialidade do terceiro e, principalmente, do segundo ano de Community, foi uma decepção tremenda, uma temporada fácil, fácil de esquecer. Tomara mesmo que no quinto ano supram a falta de Dan Harmon e façam algo melhor. (Não comentei tanto sobre isso, mas também achei estranhíssimo o modo como costuraram Pierce nesses últimos episódios).

    Não estou acompanhando essa última temporada de The Office, mas retomarei pra conferir o fim da série. Bom saber que deram uma melhorada.

    E eu devo te agradecer enormemente pelo elogio e por acompanhar meus textos. Você não sabe como é bom saber que alguém lê, aprecia e acha útil o que escrevo. Se complementei sua experiência de assistir a série, me sinto realizado. Obrigado e até o próximo ano!

    (Ah, não sei se já te recomendei ou se você já assiste, mas comece a ver “Louie”, série que também comento aqui no Guia, e que é, sem dúvida, a melhor comédia da atualidade).